Quem trata com semaglutida ou tirzepatida em versão manipulada recebe o medicamento num frasco — e aplica com seringa de insulina. Nesse momento, três unidades diferentes se encontram: a dose prescrita em miligramas (mg), o volume do líquido em mililitros (mL) e a escala da seringa em UI (unidades internacionais). É aqui que mora a maior parte das dúvidas — e dos erros que chegam aos consultórios.
A boa notícia: a lógica é uma só, e entendê-la tira a ansiedade da aplicação.
As três unidades, em uma frase cada
- mg (miligrama) é a quantidade do medicamento — é o que o seu médico prescreve.
- mL (mililitro) é o volume do líquido — é o que entra na seringa.
- UI é a marcação da seringa de insulina — uma régua de volume: 100 UI = 1 mL, sempre.
A UI não mede o medicamento. Ela mede o espaço que o líquido ocupa. Por isso a mesma dose em mg pode virar números de UI completamente diferentes, dependendo do frasco.
O elo que falta: a concentração
O que conecta mg a mL é a concentração do frasco, escrita no rótulo em mg/mL — quantos miligramas do medicamento existem em cada mililitro da solução. Ela é definida pela farmácia de manipulação e varia de farmácia para farmácia e de fórmula para fórmula.
A relação entre as três unidades é esta:
volume (mL) = dose (mg) ÷ concentração (mg/mL) UI na seringa = volume (mL) × 100
Um exemplo com números redondos
Exemplo hipotético, só para mostrar a mecânica da conta. Suponha uma dose prescrita de 0,5 mg e um frasco cuja concentração é 2,5 mg/mL:
- Volume: 0,5 mg ÷ 2,5 mg/mL = 0,2 mL
- Na seringa: 0,2 mL × 100 = 20 UI
Agora o mesmo 0,5 mg num frasco de 5 mg/mL:
- Volume: 0,5 mg ÷ 5 mg/mL = 0,1 mL
- Na seringa: 10 UI
Mesma dose, metade das UI — porque o segundo frasco é duas vezes mais concentrado. É por isso que nenhuma tabela da internet substitui o rótulo do seu frasco: quem responde "quantas UI?" é a concentração que a sua farmácia usou, não a experiência de outra pessoa num grupo.
Onde os erros acontecem (e como se proteger)
- Trocar de frasco sem refazer a conta. Um frasco novo pode vir com outra concentração. A cada frasco, confira o rótulo — e, se o número mudou, refaça a conversão com a farmácia antes da primeira aplicação.
- Copiar as UI de outra pessoa. A dose dela é outra, a concentração dela é outra. Duas contas diferentes, garantido.
- Confundir UI de insulina com UI do peptídeo. A escala da seringa foi feita para insulina, mas aqui ela serve apenas de régua de volume. Não há equivalência entre "unidades de insulina" e miligramas de semaglutida ou tirzepatida.
- Fazer a conta de cabeça na hora da aplicação. Deixe a conversão registrada — por escrito ou no app — e confira uma vez com calma, não a cada aplicação com pressa.
Na dúvida, a regra é uma só: pare e pergunte. Farmacêutico responde conversão; médico responde dose. Nenhuma aplicação é tão urgente que não possa esperar uma confirmação.
O papel do registro
Com manipulado, o registro importa ainda mais do que com a caneta pronta: anotar a data, o local, a dose em mg e a concentração do frasco em uso cria um histórico que protege você — na troca de frasco, na troca de farmácia e na consulta. No diário de aplicação, essa informação vira padrão visível em vez de memória solta.
O guenki foi desenhado para essa realidade: o tratamento manipulado é registrado como ele é — em mg, com as fases que o seu médico definiu — e o histórico fica pronto para a consulta.